Um dia de Fúria

Logo pela manhã o assunto da fila na padaria: referendo. Levantei cedo, em pleno domingo, justo por esse motivo. Os diálogos entre irmãs da “29º Pastoral Católica Eu Digo Sim” se misturavam aos doces berros das funcionárias do pãozinho. “Bolo de cenoura, fresquinho!”. Voltando para casa percebi que havia esquecido meu suco de caixa. Toca para a padaria novamente. E mais conversa de pastoral, e mais bolo fresco.
Dia bonito, céu azul, até então muito agradável. Sigo em frente, pois sei que ainda terei que enfrentar um ônibus até minha zona eleitoral. Apesar de me sentir suada dois minutos após o banho o bom humor ainda imperava. Alguns quilômetros até o ponto nem são um empecilho, foi até divertido andar um pouco.
Então, quando eu achava que tudo caminhava bem demais para ser verdade, começa a desandar.
Pago uma das passagens mais caras deste país para esperar, num ponto sem cobertura, debaixo de um sol que agora já não me sorria mais, derretendo feito picolé no verão, um maldito ônibus lotado. Pude concluir, durante minha estadia no ponto, após ver passar 5 ônibus com destino a Itacibá e mais 7 à caminho de Campo Grande em menos de meia hora, que o mundo deve morar em Cariacica. E quando já pensava em justificar meu voto na sessão mais próxima, meu ônibus aponta repleto de gente, após ter esperado exatas 1:27. A essa altura eu era só o palito do picolé. Ok! Levei em conta que era domingo, respirei fundo e entrei na condução. Perguntei ao motorista se tinha se atrasado, ele me olhando meio enfezado respondeu:
- É domingo, a senhora queria o que?
Eu, bem de saco cheio da falta de educação, quis levar o assunto para frente...
- Um pouco de respeito não seria mal!
Percebendo que aquilo não me levaria a lugar algum, fui tentando me ajeitar entre os muitos, eu disse muitos, passageiros lá atrás. Sartre diz que o inferno são os outros, Nelson Rodrigues que a família é o inferno de cada um. Lhes conto a verdade: o inferno é um ônibus lotado.
Corpos, suores e cheiros... Não, isso não é o início de uma cena de sexo e sim um bando de gente procurando um espaço onde já não cabia nem um átomo. Em pé até o meu destino, foram cruéis ao pisar no meu dedo mindinho três vezes. “O debaixo não tem olho moça!”. Quanta sutileza... Mais 40 minutos seriam suportáveis? Uma criança resolve chorar, ou melhor, berrar. O pai lhe senta uns tapas e ameaça não dar alguma coisa que ela quer. Ela continua a berrar... Tortura! Um bêbado entra no ônibus. Lei de Murphi, sempre pode piorar e piora. Ele pára do meu lado, maldito fedor de cachaça com cê-cê encardido. Ainda faltam 20 minutos.
E depois dessa maratona ainda querem que eu vote no sim... Revolta total! Mais do que nunca faço jus ao nome deste blog. Sinto-me como Dobel, personagem de Woody Allen em “Igual a Tudo na Vida”. Quero me armar até os dentes!
Busquei minha mãe e fomos votar juntas. Em frente à urna a indecisão ainda pairava. Que botão apertar? Não conto, dizem por aí que o voto é secreto...
Escrito por La Femme D'Argent às 01h38
[]
[envie esta mensagem]
|