VOLTEI A PEDALAR

Voltei a andar de bicicleta. Em primeiro lugar porque estou com tempo, um tempo pequeno, noturno e preguiçoso, mas tempo. Segundo, porque embora eu viva falando comigo mesma pelos cotovelos – na rua, na chuva, mas não em uma casinha de sapê que é coisa de bicho grilo - é quando eu posso ajeitar as coisas na cabeça sem ter que me preocupar com as pessoas por perto perguntando se enlouqueci.
As vezes tenho a impressão que seria melhor freqüentar uma academia. Dessas com rapazes visualmente intrigantes e meninas “gostosonas” ou de gosto musical feliz. Na verdade, até já tentei fazer parte da turma do açaí, mas a tentativa foi frustrada por conta do meu porte atlético não muito convincente e meus óculos que caiam em toda aula de aerobahia – eu não deveria ter confessado isso aqui. Desisti, claro, com o pretexto de que pedalar vendo o mundo é melhor que vendo pernas e peitorais definidos.
Concordo com um amigo quando diz que andar de bicicleta é um exercício mais mental do que físico, embora um não exclua o outro. Ajuda a arejar – nossa! que palavra mais minha mãe – a cabeça.
Pelas ruas da província, disputando espaço entre carros e ônibus, pessoas e poluição, as vezes faz falta uma ciclovia espaçosa, longe de motociclistas surtados e buracos “Jardel”, mas a verdade é que gosto da loucura toda de conversar com os pensamentos e ao mesmo tempo xingar o pedestre desatento. Sinto uma sensação maior de realidade – mesmo convivendo com a ficção no mesmo instante - que não se tem quando se pedala em uma academia ou em uma ciclovia de parque, longe do caos urbano. É bom saber que estou acordada, mesmo as voltas com o distante, pronta para mudar o curso se for preciso.
Voltei a pedalar.
Escrito por La Femme D'Argent às 16h42
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