Maybe Tomorrow

 

De repente um frio estranho na espinha. Sabe-se que esse frio não é de forma alguma ruim. Apenas, digamos, diferente das costumeiras sensações. De repente um ponto final e uma página em branco ansiosa por tinta. De repente pular do oitavo andar é só música boba, porque a gente cai e levanta o tempo todo e sempre espera que da próxima vez o chão seja complacente com o nosso tombo.

 

Talvez você chute o balde do velho emprego que só serve para pagar contas ou talvez continue nele, simplesmente por achar que é mais feliz fazendo a festa no 8 vezes sem juros da loja de departamentos.

Talvez você use um tênis menos apertado, porque aquele all star da liquidação é até cool, mas está longe de ser confortável. Mas talvez você prefira band aids.

 

É bem possível que você volte a falar com a sua amiga de infância, tentando entender o por que de terem se afastado, quando aquelas gargalhadas na volta da escola pareciam tão eternas. Então talvez vocês queiram deixar o passe escolar na tia da pipoca e voltar a pé para casa, se entupindo de caroá e baré, mas a verdade é que o tempo deu conta de não cruzar mais os caminhos e faltam o passe, a tia da pipoca e o mais importante, as risadas.

 

Talvez você cresça ou, como eu, continue com 1,57, o que não é tão mau assim. E talvez você cresça de verdade e tenha um cargo decente, na empresa que você sempre quis, com boas cifras no banco e uma família feliz comendo Doriana no pão quentinho [algumas pessoas dão o nome disso de crescer e pode ser que sim, talvez seja bom]. Mas talvez – e devo dizer que isso é ótimo – você fique como eu. Que cresceu, porque acabou de subir em uma pilha de livros cuidadosamente dispostos no chão para pegar a chupeta que seu filho jogou no mais alto andar da prateleira. Crescer porque ouviu um disco antigo e não tinha prestado atenção na letra antes e agora ela faz tanto sentido. Ou porque não conseguia sair do difícil capitulo de um livro e entende, mais tarde, que aquele é só mais um capitulo e que o importante é navegar na viagem que é ler.

 

De repente, assim como eu, você perceba que cresceu, porque a pessoa que você ama procura receitas divinas na internet e cozinha só para você, mesmo que essas receitas divinas sejam apenas uma variação muito interessante de carnes e batatas.

 

Talvez essa pessoa queira ir mais cedo para a cama no domingo, porque tem um trabalho difícil na segunda ou só porque quer ler o romance novo do Hornby. Mas talvez ela se divirta em te ver rindo na sala com as vídeo-cassetadas e puxe uma almofada para perto, se ajeite no sofá e entre seus braços e em meio as suas gargalhadas e os palavrões do Faustão, pegue no sono até que você o faça levantar para escovar os dentes.

 

Talvez você continue onde está, lendo a revista Bravo para saber das novidades cosmopolitas, fazendo cara de interessante após ler a coluna do Tom Zé [eu gosto do Tom Zé]. Mas talvez você deixe de ser espectador disso tudo e queira fazer parte, queira estar lá. Queira, de certa forma, mesmo que de um jeito meio desengonçado e apressado, crescer. Nem que seja crescer nos números dos km’s rodados nas rodovias que ligam a província à metrópole, nem que seja para diminuir o tamanho das fibras óticas. E se tudo isso acontecer acompanhado da pessoa que o completa, alguém tão idiota quanto você... Bem, aí você pode dizer para a sua mãe que “um amor e uma cabana” ainda dão certo sim e o resto que se dane.

 

 

ps: para alguém tão idiota quanto eu.

ps2: continua a mania de escrever "você" quando quero dizer "eu".



Escrito por La Femme D'Argent às 13h29
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