Sobre o tempo: parte II

Tempo é Golpe Baixo

Domingo, 22 de outubro, 23h08

Mais uma vez, o tempo. Substantivo masculino que não sabe ser ele ou ela e pela indefinição traz na personalidade extremos dos dois.

Dele, o prazer do período e o objetivo das realizações, sem esquecer da presença do que foi, a razão. Dela, a velocidade das pulsações, a ansiedade velada em dedos inquietos que teclam minutos nas lacunas onde sopram os ponteiros.

Essa invenção do homem que não funciona da mesma maneira pra todo mundo, bem que podia, com tanta tecnologia, ser menos dolorida. Bem que podíamos, cada um, à sua moda, criar o seu e estalar os dedos quando quiséssemos pará-lo ou simplesmente deixar seguir. Sempre quis dizer: suspende o tempo! Soa bonito.

Rebobinar nunca. Isso seria descaracterizar as origens do tempo e torná-lo um processo escravo, mais dele do que dela e o feminino aqui é presença importante. É preciso equilibrá-lo já que não se pode controlá-lo.

É preciso tirar dele esses presentes de aflição, como em um domingo sem sabor, tomado por cliques de desatenção, em busca de algo que distraia. É preciso deixá-lo ir sem se preocupar muito com a presença ou falta dele ou então ele será seu pior amigo. O presente, ausente.

A semana é preenchida por goles de preocupações de umbigo, enquanto os domingos são assim, sem eira nem beira, sem graça, perdidos entre o querer e a impossibilidade do fazer.

Levanto a passadas lentas de preguiça. Um banho desperta os que ainda dormem. Procuro histórias em páginas de jornal. Uma idéia que alimente o dia. Nada. Negócio mesmo é ser dona de casa no domingo e brincar de inventar estória no fogão. Há também a tentativa cinema, mas com desdém ele te olha e diz que hoje não há sessão. Volto. Falo com meus instantes de euforia. Sinto. Durmo.

É preciso sim esquecer o tempo, só desse jeito ele esquece você. 



Escrito por La Femme D'Argent às 17h37
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